Maria Laura Pozzobon Spengler

Livro de imagem: Quando a ilustração se faz dona da palavra

Ms. Maria Laura Pozzobon Spengler

Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, Brasil

(lolyzinha@hotmail.com)

 

Resumo: Este trabalho tem como objetivo realizar uma reflexão sobre o papel do livro de imagens na literatura destinada ao público infantil. Buscando uma reflexão sobre a ilustração oferecida como principal leitura de uma narrativa, especialmente nos livros de literatura infantil. Busca subsídios para a construção de um mapa teórico sobre o livro de imagens, suas concepções a partir dos primeiros estudos acerca do tema até a atualidade, através de um levantamento teórico e didático fornecido por estudiosos no Brasil. O livro de imagens fornece ao leitor infantil uma extensa gama de possibilidades narrativas. Assim, se faz necessária uma reflexão sobre o papel da leitura do livro de imagem na literatura infantil, como ponto de partida para construção de conhecimento.

Palavras-chave: ilustração, livro de imagem, mapa teórico, literatura infantil.

 

Abstract: This work aims to develop a reflection on the role of picture book literature aimed at children. Seeking a reflection on the main illustration offered as reading a narrative, especially in the books of children's literature. Search subsidies for the construction of a theoretical statement about the picture book, his views from the first studies on the subject until today, through a theoretical and textbook provided by scholars in Brazil. The picture book provides the reader with an extensive range of children's narrative possibilities. Thus, it is necessary to consider the role of picture book reading in children's literature as a starting point for building knowledge.

Keywords: illustration, picture book, map theory, children’s literature.

 

Desde os primeiros estudos teóricos acerca da ilustração e imagem no livro infantil, alguns conhecidos estudiosos brasileiros escreveram sobre o tema. Este artigo busca construir um mapeamento, mesmo que breve, sobre algumas das publicações brasileiras destinadas ao estudo da ilustração na literatura infantil, especialmente aquelas que estudam obras compostas por imagens como forma única de linguagem, reconhecidas no conjunto de fundamental importância para o reconhecimento deste tipo de livro como elemento facilitador para o processo de conhecimento.

No livro Ilustração do Livro Infantil (1995), Luís Camargo dedica um capítulo sobre o Livro de Imagem, que traz uma denominação que até hoje é usada por outros estudiosos que se debruçam sobre este tipo de livro infantil: “Livros de imagem são livros sem texto. As imagens é que contam a história” (Camargo: 1995: 70).

Este autor monta um panorama sobre a história do livro de imagem no Brasil, citando seus pioneiros e construindo uma lista das principais publicações do gênero destinado ao público infantil até o ano de 1995. Dentre outras informações presente na publicação, uma que se destaca é a elaboração de uma classificação das funções da ilustração, na qual o autor enumera as características primordiais apresentadas nas ilustrações dos livros de recepção infantil.

O autor destaca a importância da leitura das diversas linguagens que são apresentadas nos meios de comunicação e da necessidade de uma alfabetização que não seja exclusivamente voltada ao conhecimento das letras. E conclui:

 

O livro de imagem não é um mero livrinho para crianças que não sabem ler. Segundo a experiência de cada um e das perguntas que cada leitor faz às imagens, ele pode se tornar o ponto de partida de muitas leituras, que podem significar um alargamento do campo de consciência: de nós mesmos, de nosso meio, de nossa cultura e do entrelaçamento da nossa com outras culturas, no tempo e no espaço (Camargo, 1995: 79).

 

Fanny Abramovich também dedicou um capítulo sobre o livro de imagem em sua publicação Literatura Infantil: gostosuras e bobices (1997), no qual escreve sobre as possibilidades das histórias sem texto escrito.

Através de um panorama das produções de ilustradores/escritores como Eva Furnari, Ângela Lago e Juarez Machado, a autora descreve algumas das publicações de livros infantis sem texto mais conhecidas pelos leitores brasileiros, dando ênfase espacialmente às características que tornam esses livros únicos: os traços, as cores, o uso das páginas, o movimento que essas histórias apresentam, e com as diversas formas nas quais aguçam e mexem com a inteligência dos leitores.

Fanny Abramovich destaca a importância da habilidade do escritor/ilustrador na criação das narrativas seqüenciais e completas sem o uso da palavra, de maneira inteligente e “cutucante”. A autora também colabora na afirmação da possibilidade da construção oral das histórias nos livros de imagem pelos leitores, que a partir da oralidade pode-se ampliar os detalhes, refazendo a história de modo novo e pessoal, inventando as mil possibilidades que apenas as narrativas visuais permitem e estimulam. E, por fim, afirma:

 

Esses livros (feitos para crianças pequenas, mas que podem encantar aos de qualquer idade) são sobretudo experiências de olhar... De um olhar múltiplo, pois se vê com os olhos do autor e do olhador/leitor, ambos enxergando o mundo e as personagens de modo diferente, conforme percebem esse mundo... (Abramovich, 1997: 33).

 

Para Fanny Abramovich, é através da visão que se pode “saborear” e “detectar” o mundo circundante, e ao se aprender a usar esse instrumento é possível que se consiga uma maneira de não formar “míopes mentais”.

Nelly Novaes Coelho (2000) apresenta o livro de imagem como uma tendência ou linha da literatura infantil contemporânea. Assim como os livros realistas, os contos maravilhosos, o livro de imagem é uma linha de narrativa. A autora apresenta essa produção como “livros que contam histórias através da linguagem visual, de imagens que falam” (Coelho: 2000: 161). O livro de imagens é excelente estratégia para o reconhecimento do mundo que cerca a criança e afirma que para a criança o livro de imagem é:

Processo lúdico de leitura que, na mente infantil, une os dois mundos em que ela precisa aprender a viver: o mundo real-concreto à sua volta e o mundo da linguagem, no qual o real-concreto precisa ser nomeado para existir definitivamente e reconhecido por todos).

 

Nelly Novaes Coelho ainda completa sua definição com uma lista de livros sem texto publicados por autores/ilustradores brasileiros.

Maria Zilda da Cunha em seu livro Na Tessitura dos signos contemporâneos: novos olhares para a Literatura Infantil e Juvenil (2009), também destaca espaço para o livro de imagem quando afirma que: “há ainda casos em que as imagens são o seu próprio contexto. Assim, as imagens são textos autônomos” (2009: 142). A autora faz uma análise do livro Outra Vez, de Ângela Lago e destaca a importância deste título composto por imagens em todos os seus elementos mais relevantes como: tempo/espaço, personagens e elementos figurativos.

Lúcia Pimentel Góes em Olhar de Descoberta (2003) apresenta o OBJETO NOVO, o livro que traz múltiplas linguagens, fugindo da tradicional linguagem verbal, ao livro é acrescentado a ilustração, este novo objeto traz consigo a necessidade da ressignificação do olhar do leitor para apreender e compreender o mundo de estímulos visuais, especialmente pictóricos que o cerca.

O capítulo destinado ao estudo do livro de imagem foi escrito por Eva Furnari, conhecida escritora e ilustradora de livros para a infância. Furnari nomeia esta linha narrativa como Livro Só-Imagem e que são nestes livros que o desenho conta toda a história sem que a palavra escrita entre em “jogo”. E afirma que: “A criança não necessitaria das explicações do adulto para fruir a história; e, o que é mais interessante, por meio de uma linguagem que lhe é extremamente familiar, haja vista quanto o desenho é importante na atividade da criança” (Furnari, 2003: 65).

Eva Furnari elabora ainda uma lista de características que considera importantes para a produção e confecção de livros infantil formado apenas por imagens: o livro deve estimular a imaginação e a atividade da criança; a linguagem deve ser apropriada ao universo da criança, tanto na estrutura como na forma de se apresentar a linguagem; alguns livros são específicos a certas idades; as ilustrações devem fugir de estereótipos.

Regina Zilberman também participa desta discussão, quando ao montar uma lista com autores/ilustradores brasileiros, revela características fundamentais do livro de imagem. O capítulo denominado Quando fala a ilustração, no seu livro Como e por que ler a Literatura Infantil Brasileira (2005), ao se referir ao livro de imagens, a autora afirma que: “Com efeito, a ilustração, nesses casos, substitui a linguagem verbal, o texto, mas não os elementos próprios à literatura, como a narrativa, a opção por personagens humanos ou humanizados, a adoção de um ponto de vista” (Zilberman, 2005: 156).

A autora também coloca que é o leitor o responsável em transformar o enredo da história em palavras, engendrando a linguagem verbal com a linguagem visual, narrando o que as imagens sugerem.

Para Lígia Cadermatori, conforme se refere em O que é Literatura Infantil (2006) o livro de imagem surge como uma possibilidade rica de leitura para as crianças que ainda não leem o código escrito. São eles os “livros sem texto que recorrem, exclusivamente, à linguagem visual” (2006: 52).

Para a autora, a percepção visual exerce uma função de ordenação, e o livro de imagem colabora como uma etapa importante para o desenvolvimento da leitura, através da produção de narrativa pela via visual.

Eliane Debus, em Festaria de Brincança – A leitura literária na Educaçao Infantil (2006) ao apresentar os critérios de escolhas dos livros infantis elencados pelos catálogos editoriais, evidencia que nos catálogos os livros de imagem são indicados às crianças pequenas que ainda não adquiriram a compreensão do código verbal escrito. Sem excluir a importância do livro de imagem neste processo, a autora afirma que “No período que antecede o domínio do código escrito, a imagem auxilia na leitura e dá à criança a sensação de estar construindo a história” (Debys, 2006: 102).

Maria Alice Faria também participa da discussão, quando abre espaço para o livro de imagem em Como usar a Literatura Infantil na sala de aula (2008), o capitulo destinado às narrativas no livro de imagem traz uma introdução sobre a necessidade do ilustrador ter sensibilidade para se fazer entender pela criança e segue afirmando ainda a falta de utilização deste gênero que é tão rico em possibilidades. A autora destaca a importância da sequência nas cenas de uma história sem texto e que o autor necessita ser bastante claro na introdução de “elos de encadeamento” que fazem ligação entre os quadros que narram a história a ser contada. E assim explicita o uso do livro de imagem:

 

Um trabalho minucioso com crianças, apontando ou levando-as a descobrir esses elementos técnicos que fazem progredir a ação ou que explicam espaço, tempo, características das personagens etc. aprofundará a leitura da imagem e da narrativa e estará, ao mesmo tempo, desenvolvendo a capacidade de observação, análise, comparação, classificação, levantamento de hipóteses, síntese e raciocínio (Faria, 2008: 59).

 

Ieda de Oliveira (2008) organizou um livro com artigos de ilustradores que escrevem sobre a qualidade da ilustração no livro infantil e juvenil. Entre eles se destaca Marilda Castanha que se ocupou em escrever sobre a linguagem visual no livro sem texto e destaca a importância do aprendizado na leitura de imagens “utilizar a imagem como instrumento de linguagem foi – e ainda é – crucial para todos os grupos culturais” (Castanha, 2008: 141). Ela ainda sugere que a leitura de imagens segue alguns passos, pois “Para darmos unidade à sequência de imagens, observamos atentamente, reparamos em pequenos detalhes, refletimos sobre as diferenças que encontramos nas imagens ao comparar páginas. Isso é ler imagens” (Castanha, 2008: 143).

A autora vai além, destacando que pais e professores se sentem desconfortáveis com as possibilidades do livro de imagem, já que a partir do aprendizado do código escrito, as características relacionadas às ilustrações dos livros vão sendo colocadas em segundo plano, como se o adulto fosse, aos poucos, “desalfabetizado de imagens”. E ao estimular o uso do livro sem texto por crianças e adultos, a autora confirma:

 

É transgressor conceber uma obra aberta, onde várias leituras possam se relacionar. É transgressor propor uma narrativa somente por elementos visuais. E é transgressor considerar que o livro sem texto, aparentemente um objeto lúdico, também oferece uma narrativa literária para diferentes leitores, sejam eles crianças ou adultos (Castanha: 2008: 148).

 

Novamente em 2009, Lúcia Pimentel Góes aposta da discussão sobre o uso da imagem na linguagem literária, quando organiza A Alma da Imagem, junto com Jakson de Alencar. Em uma coletânea de artigos escritos por ilustradores brasileiros, ela retoma seu conceito de “OBJETO NOVO”, através de uma retrospectiva da imagem em toda a história da humanidade e chegando em uma concepção de literatura infantil, conceitos antes vistos em Olhar de Descoberta (Góes, 2003).

O livro de imagem se destaca no capítulo entitulado O Universo fascinante dos signos visuais, escrito por Graça Lima, esta autora enfatiza a necessidade de um alfabetismo visual através de um “sistema básico de aprendizagem, identificação, criação e compreensão de mensagens visuais” (Lima, 2009: 73). Colocando entre as causas prováveis dessa necessidade a ênfase colocada pela educação, em todas as formas de linguagem verbal escrita e a falta de preocupação com a experiência visual das crianças. Neste sentido, destaca a importância de pais, educadores e todas as pessoas ligadas ao mundo da literatura apreenderem o universo visual que cerca as crianças na atualidade, para fazer com que essa linguagem visual se torne aliada na educação necessária como “promessa de enriquecimento no futuro” (Lima, 2009: 76). E finaliza, observando que: “a inteligência visual aumenta o efeito da inteligência humana e amplia o espírito criativo” (Lima, 2009: 76), enfatizando que o livro ilustrado é tão importante para os professores alfabetizadores como os professores de classes mais avançadas, isso se dá pela ampla capacidade narrativa que o livro composto de imagens favorece.

Peter O’Saggae (2010), pesquisador que mantém o site Dobras de Leitura faz um levantamento das principais definições usadas no material teórico sobre o livro de imagem e apresenta o seguinte diagrama[1]:

 

Livro de imagem (Bonfim, 1996)

Livro só-imagem (Góes, 1996)

Livros de imagem (Lima e Ferraro, 2001)

Livro de imagem com legenda (Edital PNLD, 2001)

Álbum colorido

Álbuns de imagem

Álbum de figuras

Livro com imagens

Livro de gravuras                       (Coelho, 1981)

Livro-de-gravuras

Livro-de-figuras

Livro de estampas

Estorietas sem palavras

Literatura-sem- palavras

Narrativas-imagéticas (Mokarzel, 1998)

Literatura visual (UBE, 1994)

Livro sem texto (FNLIJ, 1981/ APCA, 1984-1994)

Álbum ilustrado

Livro mudo

História muda                     (Camargo, 1995)

Histórias sem palavras

Texto visual

Denominações de Livro de Imagem, elaborada por Peter O’Saggae

 

Como pode ser observado o Livro de Imagem vem ganhando espaço nas pesquisas que envolvem a Literatura Infantil no Brasil, especialmente nos últimos anos, isso se dá pela necessidade de se nomear este gênero literário, já que apresenta ainda como uma literatura sem nome, isso se percebe nas diversas denominações que o Livro de Imagem recebe nas diferentes pesquisas realizadas. Mas ainda assim, percebe-se o crescente valor que o Livro de Imagem vem adquirindo nas pesquisas relacionadas à literatura para crianças.

Acreditamos que o livro de imagem é instrumento de possibilidades de leitura, interpretação e significação, um livro literário que se adequa a todos os leitores, independente de faixa etária, estando muito mais ligado ao repertório de leitura de cada leitor. O livro de imagem é objeto inteligente, composto das mais diversas linguagens e deveria sim, estar ligado a todos os processos de leitura, tanto leituras verbais, já que possibilita construção de narrativa, quanto na leitura visual imagética, como instrumento de alfabetização visual, e assim, por consequência, leituras de mundo e conhecimento.

 

Referências

ABRAMOVICH, Fanny (1997), Literatura Infantil: gostosuras e bobices, São Paulo: Scipione.

CADERMATORI, Lígia (2006), O que é literatura infantil, São Paulo: Brasiliense.

CAMARGO, Luís (1995), Ilustração do livro infantil, Belo Horizonte: Ed. Lê.

CASTANHA, Marilda (2008), “A linguagem visual no livro sem texto”, en Ieda de OLIVEIRA (org.), O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador, São Paulo: DCL.

COELHO, Nelly Novaes (2000), Literatura infantil: teoria, análise, didática, São Paulo: Moderna.

CUNHA, Maria Zilda da (2009), Na Tessitura dos signos dos signos contemporâneos: novos olhares para a Literatura Infantil e Juvenil, São Paulo: Editora Humanitas/Paulinas.

DEBUS, Eliane (2006), Festaria de Brincança: a Leitura Literária na Educação Infantil, São Paulo: Paulus.

FARIA, Maria Alice (2004), Como usar a literatura infantil na sala de aula, São Paulo: Contexto.

FURNARI, Eva (2003), “Livro Só – Imagem: Propostas de desenvolvimento de uma linguagem puramente visual”, en Lúcia Pimentel GOÉS, Olhar de descoberta: proposta analítica de livros que concentram várias linguagens, São Paulo: Paulinas.

GOÉS, Lúcia Pimentel (2003), Olhar de descoberta: proposta analítica de livros que concentram várias linguagens, São Paulo: Paulinas.

—, e Jakson de ALENKAR (orgs.) (2009), Alma de imagem: A ilustração de livros para crianças e jovens na palavra de seus criadores, São Paulo: Paulus.

LIMA, Graça (2009), “O universo fascinante dos signos visuais”, en GÓES e ALENKAR (orgs.), Alma de imagem: A ilustração de livros para crianças e jovens na palavra de seus criadores, São Paulo: Paulus.

OLIVEIRA, Ieda (org.) (2008), O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador, São Paulo: DCL.

O’SAGGAE, Petter (2010), Livro de Areia [<http://www.dobrasdaleitura.com>]. Consulta: março de 2010.

PESSOA, Fernando (nd), Quando fui outro, Alfaguara.

ZILBERMAN, Regina (2005), Como e por que ler a literatura infantil brasileira, Rio de Janeiro: Objetiva.



[1] Este quadro foi elaborado por Peter O’Saggae para apresentação em uma Oficina no 1º encontro para formação do professor leitor, no município de Picada Café, Rio Grande do Sul, estes dados ainda não foram publicados, mas autorizados pelo autor para uso neste trabalho.