Sirlene de Lima Corrêa Cristófano

Compreender as diferenças através do itinerário simbólico

em A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga:

Educar para Incluir

Sirlene Cristófano

Faculdade de Letras da Universidade do Porto – FLUP

(sirlene.cristofano@gmail.com)

 

Resumo: Esta comunicação propõe-se divulgar o modo como a literatura infanto-juvenil interfere no desenvolvimento do pensamento e da linguagem de seus leitores, particularmente a partir da interacção destes, com a obra de Lygia Bojunga Nunes, no que ela tem de atraente e sugestivo, mas também mostrar que ela é susceptível de promover a inclusão social.

Palavras-chave: Literatura, Imaginário, Inclusão.

 

Abstract: This paper proposes to investigate how children's literature can interfere with the development of thought and the language of their readers particularly with their interactions on Lygia Bojunga Nunes’s novel, in what it has of attractive and suggestive, but it also shows how it is likely to promote social inclusion

Key words: Literature, Imaginary, Inclusion.

 

Fantasiar, reflectir e compreender as diferenças

A literatura vem ao longo dos anos, se consolidando, “num dos mais eficazes instrumentos de formação da criança” (Coelho, 1991: 320), reafirmando-se como cenário democrático de personagens e linguagens diferentes, abordando vários aspectos do quotidiano. Ao falarmos desta diferente linguagem literária, compreendemos a importância de um estudo aprofundado, relacionado às suas contribuições, para assim, termos uma noção da sua grande importância no processo de inclusão escolar.

Dentro de uma perspectiva psicanalítica, Bruno Bettelheim (2006) apresenta-se a favor da Literatura Infantil, principalmente dos contos de fadas, para o pleno desenvolvimento psíquico e compreensão dos conflitos na fase infantil. O autor defende que os elementos presentes nestas narrativas provocam “imagens à criança com as quais ela estrutura seus devaneios e direccionam sua vida” (Bettelheim, 2006: 16). Este tipo de literatura, de um modo peculiar atende a uma necessidade das crianças especiais ao contribuir com a formação de sua identidade, pois “os contos de fadas (…) orientam a criança no sentido de descobrir sua identidade e vocação e sugerem também quais as necessárias experiências para melhor desenvolver o seu carácter (…) que uma vida boa e compensadora está ao alcance de todos apesar da diversidade” (Bettelheim, 2006: 34).

Deste modo, conceder à literatura uma função psicológica é correctamente admissível, porque seja qual for a idade ou condição social, o aproveitamento da literatura vem ao encontro da necessidade da fantasia que todos nós possuímos. A fantasia está ligada a realidade e por isso a literatura está ligada á vida e a formação do homem. Portanto, a literatura além de ensinar, actua também na formação da criança e segundo Zilberman (1985) esta relação existente entre criança e literatura é que assegura uma plena formação, através dos recursos de ficção que vem de encontro com a realidade do quotidiano do leitor.

Lygia Bojunga, galadoarda com vários prémios entre eles, o ALMA – Astrid Lindren Memorial Award, em 2004, o maior prémio internacional nunca atribuído antes na área da literatura para o público juvenil – constrói as suas narrativas utilizando a infância como tema principal. Para além disto, a sua obra é caracterizada por uma marcante infracção dos limites entre realidade e fantasia, o que poderá proporcionar à criança um caminho para a maturidade e para a busca da sua identidade.

A obra seleccionada para análise, A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, publicada em 1976, é uma das muitas obras desta autora que se identifica com o publico infanto-juvenil e contém um discurso que não subestima a capacidade de leitura das crianças.

As narrativas de Lygia Bojunga, ao alcance das experimentações das crianças, numa influência lobatiana, proporcionam à criança através de seu olhar reflexão sobre diversos temas: identidade, preconceito, a verdade, as relações familiares, entre outros. Podemos classificar A Bolsa Amarela, como uma narrativa do realismo-maravilhoso, mesmo sendo um conto maravilhoso não puro, por não conter todos os elementos do conto maravilhoso.

No maravilhoso puro, a acção segue uma sequência linear à qual obedece uma ordem cronológica e uma relação de causalidade. Para além disso, o tempo é indefinido e extra temporal. A frase introdutória “Era uma vez…” leva-nos a um passado longínquo e a uma indeterminação temporal, o que é uma qualidade quando se trata do maravilhoso tradicional.

Já em A Bolsa Amarela de Lygia Bojunga, o tempo não segue uma ordem sequencial e a omissão temporária de dados faz com que se aumente o poder sugestivo da obra, pois segundo Marta Yumi Ando (2007), o que mobiliza, na consciência do leitor, a imaginação de hipóteses para o preenchimento de vazios.

Os espaços referenciados na obra são espaços abertos, como a praia e o mar. Mas também existem espaços fechados: a bolsa, o barco, a casa, escola e também há espaços de fronteiras, como as portas e as janelas. Além destes existem igualmente espaços urbanos, naturais e sociais, para além de espaços simbólicos e fantásticos. Esses espaços são determinados e contêm em si leituras simbólicas referidas às condições em que a personagem está vivendo; diferentemente do maravilhoso puro, em que o espaço é indeterminado, hagiográfico e também extra espacial.

Uma outra característica marcante do maravilhoso puro é que este pode optar ou não pela interferência de deuses, de seres sobrenaturais ou pela presença de fadas, que farão uso de magia e de encantamentos. Na narrativa analisada temos como protagonista uma menina com 9 anos de idade, esperta e criativa, e que se desloca sozinha, ou seja, utiliza apenas a sua imaginação e seus devaneios para deslocar-se de um local para o outro. A protagonista não utiliza encantamentos ou mágicas para isto, somente os seus devaneios. O único artifício utilizado parte da sua imaginação. A escritora na narrativa dispensa o recurso a magias e a encantamentos e substitui-os pela imaginação criativa de Raquel que construi ela própria as outras personagens, os seus amigos imaginários, humanos e não humanos.

Na narrativa de Lygia Bojunga há um respeito pela experiência vivida e mesmo quando a fantasia toma conta do enredo, nunca é construída para alienar, mas sim para resgatar experiências, fazendo com que a criança leitora compreenda as situações e aprenda a lidar com elas.

A linguagem utilizada na narrativa concede trocas à criança leitora, que com os elementos fantásticos da obra, a compreensão e a influência por ela abstraída, se equivalem a um momento de prazer. Jacqueline Held (1980: 203) destaca a importância da linguagem narrativa metafórica e nos afirma que esta é sem dúvida a mais adequada para expressar a dupla intencionalidade da literatura: além de divertir, também ensinar e que assim, “a magia da palavra nasce do uso imprevisto. Palavra (…) saída do contexto e da significação. Linguagem a caminho que se cria e que cria. Pois, no fantástico (…) a palavra dá vida, faz a coisa existir”.

A Bolsa Amarela é um dos mais premiados e populares livros infanto-juvenis brasileiros, que conta a divertida história de Raquel, a filha mais nova da família, uma menina atenta a tudo o que se passa ao seu redor. Seus irmãos, com a diferença de idade de dez anos, não lhe davam atenção e importância às coisas que Raquel queria compartilhar, porque achavam que criança não sabe coisa alguma.

Na obra de Lygia Bojunga, segundo Ligia Cademartori (2006), o universo narrativo se manifesta a partir da infância, abrangendo temas como a exclusão, as relações de poder e repressão à liberdade de expressão no contexto social. A autora, através do realismo-maravilhoso dá argumentos à criança para se identificar com as situações do quotidiano que diz respeito a Raquel, criando assim uma identificação com o pequeno leitor. A obra permite a conexão ao mundo de ficção pela condução do enredo e pelo desfecho, permitindo a cartase do leitor, propiciando uma identificação, uma descarga emocional.

A protagonista por se sentir muito só e excluída começa a escrever para seus amigos imaginários e compartilhava três grandes desejos: ser um garoto, vontade de crescer e de ser uma escritora. Um dia, ganhou uma bolsa amarela, que passou a ser o esconderijo ideal para suas vontades e fantasias. A bolsa amarela acaba sendo a casa de dois galos, um guarda-chuva-mulher, um alfinete de segurança, o refúgio de seus pensamentos e também as histórias criadas pela narradora. Raquel, através de suas histórias nos conta factos do seu quotidiano, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação, repleto de amigos secretos e fantasias. Ao mesmo tempo, que se acontecem factos reais e fantásticos, uma aventura espiritual se processa, e a protagonista vai de encontro à sua afirmação como pessoa.

A autora traz em seu enredo um brinquedo, ou seja, um objecto infantil, uma bolsa amarela, a qual passou a ser o esconderijo ideal para as invenções e vontades da protagonista, representando o desinteresse às regras determinadas pelos adultos, no qual manipula seus desejos reprimidos de acordo com o que vive no seu dia-a-dia. Gilles Brougére (1994) destaca a grande originalidade e especificidade do brinquedo, que é trazer a terceira dimensão para o mundo da representação, sendo assim, um fornecedor de representações manipuláveis.

Após a leitura, a criança se aperfeiçoa com uma visão nova sobre os aspectos da narrativa, ao desregrar as suas concepções. Com isto, a narrativa oferece para o pequeno leitor, uma “saída” para a resolução de seus conflitos pessoais. Encontramos o aspecto “inclusivo” em A Bolsa Amarela, na exploração dos sentimentos vividos pelos personagens, que proporcionam à criança leitora uma identificação e experimentação dos mesmos.

Evidenciamos primeiramente a relação adulto-criança presente em vários momentos da narrativa. Raquel num desabafo com seu amigo imaginário, ao escrever, “Não adianta (…), gente grande não entende a gente” (Bojunga, 1995: 17), relata ser incompreendida pelos adultos pelo facto de ser ainda uma criança.

Um outro sentimento explorado na obra é o da exclusão, pois Raquel sentia-se completamente excluída de sua família, sentia-se rejeitada, por não ter sido um filho programado, desencadeando-lhe o sentimento de rejeição. E Raquel, ao escrever para um dos seus amigos imaginários, “Tô sobrando (…) Já nasci sobrando (…) Mas se ela [a mãe] não queria mais ter filho, por que é que eu nasci? (…) a gente só deveria nascer quando a mãe quer a gente nascendo” (Bojunga, 1995: 13), deixa-nos claro e evidente este sentimento de carência e exclusão no seu próprio ambiente familiar.

A falta de atenção e carinho que muitas crianças sofrem também é identificada através da personagem Raquel que compartilha novamente com um dos seus amigos imaginários, porém desta vez o sentimento de solidão. A solidão impulsiona Raquel a inventar estes amigos, para assim, compartilhar dentre outros conflitos interiores, a sua carência: “Prezado André, ando querendo bater papo. Mas ninguém tá a fim. Eles dizem que não tem tempo. Mas, ficam vendo televisão” (Bojunga, 1995: 12).

Através da vivência de Raquel é sublinhado outro tema proporcionando reflexão: o preconceito contra a mulher ditado pelos adultos. Raquel contesta claramente quando deseja ser um menino, pois para a protagonista é muito melhor ser homem do que mulher e durante a narrativa em um diálogo com seu irmão reivindica os direitos femininos.

Percebemos claramente aqui, que Raquel experimenta o sentimento de inferioridade de quem não pode ter direito algum por apenas ser mulher.

Além do desejo de ser um menino, Raquel desejava também crescer logo, porque “gente grande tá sempre achando que criança tá por fora” e ao reclamar da sua irmã para um dos seus amigos imaginário, aponta claramente esta ideia.

O conflito familiar também destacado e vivenciado por Raquel é hoje muito comum na realidade da vida de muitas crianças. Raquel vive momentos de angústia por presenciar as brigas dos pais e em um momento de saudade e nostalgia e ao escrever uma de suas cartas, queixa-se para sua amiga imaginária Lorelai, dizendo o quanto era bom quando morava na roça, pois seus pais viviam rindo e andavam de mãos dadas e agora é tudo diferente, pois eles vivem brigando e discutem por qualquer coisas.

Raquel é um exemplo de personagem que, mesmo sendo criança, encontra uma forma para enfrentar o momento difícil de sua vida, ignorando o facto de os adultos a considerarem “infantil” e assim, incapaz de lidar com as realidades do quotidiano.

Sobre esta questão Walter Benjamin, nos afirma que os adultos muitas vezes menosprezam a verdadeira experiência e capacidade das crianças e dos jovens, consideradas como “experiências de vida e assim, desvalorizam os anos que os jovens e crianças estão vivendo” (Benjamin, 2002: 21-22) e o tratamento dado à Raquel na obra de Lygia Bojunga, vai de encontro a esta desvalorização.

Ao falarmos de experiência, é importante aqui ressaltarmos que o caminho do ser humano, na possibilidade de idealizar sua existência á através da construção e compreensão dos factos do seu quotidiano, partindo de reflexão para uma compreensão da realidade. E é exactamente isto, o que a obra de Lygia Bojunga nos oferece, propiciando à crianças leitoras uma forma de construir um caminho a partir do que a vida lhes oferece.

A autora, portanto, propõe a crianças leitoras, através de sua narrativa do realismo-maravilhoso vários temas, entre eles, o preconceito, a indiferença e as diferenças, falando da vida e de como é possível viver e transformar em experiência as várias situações que se absorvem ao quotidiano de quem está no mundo.

Lygia Bojunga Nunes se utiliza do olhar da criança e do jovem em suas narrativas e a partir do ponto de vista dos mesmos é que a vida se desenvolve através da experiência que se pode (re) tirar dela própria.

 

Conclusão

Defendendo a ideia do conto maravilhoso como trampolim para o auto-conhecimento, procuramos captar em A Bolsa Amarela, uma espécie de espelho mágico capaz de operar como uma imagem fiel do universo dos valores infantis.

A literatura maravilhosa ao encenar a complexidade dos problemas da vida torna-se um modelo exemplar para revelar as conexões entre Literatura Infantil e Educação, se entendermos que formula a discussão dos conflitos humanos de um modo significativo, funcionando, assim, como uma “porta que se abre para determinadas verdades humanas”.

Apesar das circunstâncias externas, das conjunturas sócio-político-económicas, existem saídas para o ser humano, não apenas a partir da colectividade, mas também a partir das mudanças e transformações de cada um: o caminho a que Jung (1992) denominou “processo de individualização”. O leitor ao ouvir ou ler A Bolsa Amarela pode ver reforçado o seu “eu”, apoiando-se na dinâmica própria dos conflitos aí narrados e das saídas que para estes lhe são apresentados na narrativa.

A Bolsa Amarela vai de encontro à libertação do “eu”, pela possibilidade de existir entre as personagens e o leitor de uma mesma vivência subjectiva.            Pode-se dizer que a narrativa de Lygia Bojunga, tal como outras narrativas do género passa a ser a ilustração da história de cada leitor, pois, com a sua característica marcante de conto maravilhoso – mesmo sendo um conto maravilhoso não puro – pela sua vasta simbologia e pela acção de todas as personagens e dos seus respectivos conflitos interiores, o leitor é conduzido a superar os seus traumas, as suas obsessões, os preconceitos sociais.

Concluímos que, esta obra tem por objectivo despertar recordações e situações conflituosas do período da infância ou da adolescência e conduzir cada leitor a experimentá-la e pô-la em acção, orientando-as para a criatividade e para uma relação sadia entre o homem e o mundo.

 

Bibliografia

ANDO, Marta Yumi (2007), “Os lugares vazios no sofá: leituras e releituras da obra lygiana”, Disponível em: [http:periódicos.uem.br/ojs/índex.php/ /article/vienwFileActasSciHumanSoc Sci /195/143].Acesso em: dez 2007.

BETTELHEIN, Bruno (2006), A psicanálise dos Contos de fadas, Lisboa: Editora Bertrand.

CADEMARTORI, Lígia (2006), O que é literatura infantil, São Paulo: Brasiliense.

COELHO, Nelly Novaes (1991), A Literatura Infantil: Teoria – Análise – Didáctica, São Paulo, Ed. Ática.

HELD, Jacqueline (1980), O Imaginário no Poder: as crianças e a literatura fantástica, São Paulo: Ed. Summus.

JUNG, Carl G, O Homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992.

NUNES, Lygia Bojunga (1985), A Bolsa Amarela, Rio de Janeiro: Agir, 11ª ed.

ZILBERMAN, Regina (1985), A literatura infantil na escola, São Paulo: Global.