Fernando Azevedo

Casaram-se e viveram felizes para sempre! Os papéis masculino e feminino na literatura infantil contemporânea

Fernando Azevedo

Braga/CIFPEC, Instituto de Educação, Universidade do Minho

(fraga@ie.uminho.pt)

 

Resumo: As representações da família constituem um tema importante na literatura infantil e encontram-se intrinsecamente ligadas aos sistemas ideológicos e de valores das comunidades de produção e de mediação. Este artigo analisa os papéis masculino e feminino na actual literatura infantil portuguesa, assinalando as relações de poder e de censura, mas também as utopias que vão emergindo, porque estes textos, tendo, entre os seus leitores, sujeitos em crescimento e desenvolvimento, comportam uma dimensão ideológica crucial para o assumir, consciente, de atitudes face ao futuro.

Palavras-chave: família, género, literatura infantil.

 

Abstract: Representations of the family constitute an important theme in children's literature and are intrinsically linked to ideological systems and values of production and mediation communities. This paper examines the male and female roles in current Portuguese children's literature, pointing out the relations of power and censorship, as well as the emerging utopias, because these texts, among their readers who are subject to growth and development, involve an ideological dimension that is crucial to assume consciously an attitude towards the future.

Key words: family, genre, children’s literature.

 

Os protocolos de leitura do texto literário

A leitura dos textos enquanto objectos literários obedece a uma série de protocolos, reconhecidos pelas comunidades interpretativas. Um deles afirma que o estado de coisas expresso pelo mundo do texto nunca pode ser entendido como uma cópia do mundo empírico e histórico-factual, o que não implica, todavia, que o texto não mantenha relações de diálogo com a semiosfera. Os textos literários apresentam sempre uma determinada modelização do mundo e suscitam uma série de importantes efeitos perlocutivos.

Os textos da literatura infantil, pela sua relação com propósitos formativos, privilegiaram desde sempre determinados pontos de vista compatíveis com as comunidades socioculturais e com os valores ideológicos aí dominantes. Tal facto não impediu que alguns, para além da afirmação de determinados mundos possíveis, contenham igualmente uma não negligenciável dimensão emancipatória e/ou utópica, como foi sublinhado por Zipes (1986, 1993), Held (1977), Lurie (1998) ou Bradford, Mallan, Stephens & McCallum (2008).

 

A construção histórica e sociocultural do género

Tatar (1993: xxi) assinala que o cânone dos nossos contos de fadas é, em forte medida, produzido a partir das colecções de Perrault e dos Irmãos Grimm e pelas reescritas/adaptações de que esses textos foram alvo, predominando neles heróis passivos, que começam por ser vítimas, mas conseguem alcançar a felicidade porque são belos ou porque têm sorte, muitas vezes, graças à posse de um objecto mágico.

De acordo com Stephens (1996: 17), a produção e a recepção dos textos é, em larga escala, mediada pelo conhecimento do mundo que as comunidades interpretativas possuem e são estes esquemas, estimuladores de processos inferenciais, que auxiliam à organização dos conceitos, eventos, objectos, modelos de comportamento, etc. Neste sentido, a construção social do género é filtrada quer pelos pré-juízos e pré-conceitos do escritor quer pelas expectativas, experiências sociais e background social e cultural das comunidades interpretativas, sendo particularmente visível no caso da literatura infantil. Com efeito, nesta literatura encontramos uma série de atributos subjacentes à construção cultural e social do género e que só raras vezes são objecto de contestação e/ou de derisão. Esses atributos, em larga medida difundidos por uma cultura de massas popular, traduzem-se num conjunto de descritores, sendo que os da masculinidade são frequentemente lidos como detentores de um grau de superioridade relativamente aos da feminilidade (Stephens, 1996: 19):

 

Atributos para a Masculinidade

Atributos para a Feminilidade

Forte

Belo (bom)

Violento

Não violento

Sem emoções, duro, agressivo, autoritário

Emocional, fraco, submisso, complacente

Transgressivo

Obediente

Competitivo

Partilhador

Ávido

Preocupado

Protector

Vulnerável

“Predador”; poderoso

“Vítima”; fraco

Jogador

Prémio

Independente

Dependente

Activo

Passivo

Pensa em termos de quantidade

Pensa em termos de qualidade

Racional

Intuitivo

 

Contemporaneamente têm surgido alguns textos que interrogam os modos convencionais de retratar o género. Pensamos, por exemplo, em O príncipe perfeito (Monteiro, 2002) ou A princesa que queria ser rei (Monteiro, 2007).

Em O príncipe perfeito, texto onde é visível um certo diálogo intertextual com a tradição judaico-cristã, o herói é apresentado como um ser tímido e delicado, profundamente preocupado com o bem-estar do seu povo, ao ponto de se anular enquanto pessoa detentora de poderes e de riqueza. Se este empreendimento lhe permite garantir, com eficácia, uma melhor qualidade de vida para todos os habitantes do reino, o príncipe, na sua sabedoria imensa, acaba por se revelar um ser eminentemente vulnerável: ele é, com efeito, preso e encerrado numa masmorra do palácio, desprezado por todos, que não lhe concedem oportunidade para que possa dizer quem é de facto. A narrativa encerra-se com um happy end (o reconhecimento do soberano pelo carcereiro), depois de, anteriormente, se ter estabelecido uma certa relação afectiva e emotiva entre os dois homens. Verdadeiro retrato de um romance de aprendizagem, este texto parece ser também uma reflexão sobre as formas da governabilidade de uma nação e das dificuldades que, por vezes, existem em escutar e perceber o Outro e, principalmente, em compreender que o essencial, como diria Saint-Exupéry, é invisível aos olhos.

Em A princesa que queria ser rei subverte o papel tradicionalmente atribuído à mulher nas histórias de príncipes e de princesas: a mulher fisicamente bela segundo determinados padrões, mas a quem está reservado um papel passivo e essencialmente doméstico. A jovem princesa, seduzida pela diversidade do exterior, metaforicamente representado pelas flores, campos, animais e pelo sol que se derrama sobre todas as coisas (Monteiro, 2007: 10), recusa permanecer dentro da clausura do palácio e sob o olhar atento da progenitora. Ela assume explicitamente uma acção, interpelando as outras crianças, ajudando as pessoas e manifestando uma capacidade que se revela desarticuladora do statu quo vigente, ao ponto de querer ver reconhecido pelos outros o seu poder, independentemente das vias usuais de acesso a ele (o casamento com o príncipe). Mas esta obra mostra-nos também o ponto de vista da princesa que se sente descriminada pelos adultos que a rodeiam, com excepção dos pais, precisamente por assumir um comportamento e um pensamento crítico próprios.

Confrontada com a necessidade de provar que merece aceder ao trono, a Princesa Peluda, também depreciativamente chamada pela vox populi de Princesa Cavalona, mostra-se detentora de qualidades guerreiras, e tendo libertado o reino de seu pai do exército inimigo, revela-nos que o importante não é a sexualidade da pessoa, mas a sua capacidade de pensar e de agir, com rectidão, sentido ético e humanidade. Dando corpo a uma voz feminina forte, analisa, com humor e sentido crítico, os lugares da sexualidade e dos valores a ela associados, assinalando pontos de vista alternativos que se revelam deveras importantes na definição do ser humano.

 

O lugar da família enquanto construção ideológica

A família tem constituído na literatura infantil um tópico muito importante. Se, frequentemente, ela é entendida como um mero quadro contextual que possibilita o desenvolvimento de um determinado estado de coisas, não é de todo despicienda a sua presença e a sua articulação com certos valores ideológicos[1].

Alston (2008) considera que a família pode, em larga medida, ser lida como uma metonímia do Estado e de outras formas de governabilidade, uma vez que concretiza os desejos colectivos, os sonhos e a visão política de uma potencial nova ordem social.

Todavia as representações ideológicas que a literatura tem feito dela têm-na mostrado como uma construção social simultaneamente problemática, no sentido em que jamais é apresentada como entidade única e definitivamente determinada; e ideal, no sentido em que as famílias comportam o essencial das promessas utópicas de um melhor futuro (Bradford, Mallan, Stephens & McCallum, 2008: 130).

A família é, no âmbito da literatura infantil, comummente associada a uma retórica segundo a qual a verdadeira felicidade parece ser impossível de alcançar sem o amor e o apoio de um núcleo ou grupo familiar dedicado. Ela é, no fundo, apresentada como o reduto da protecção e do cuidado, o calor que garante a continuidade e a segurança, em oposição aos lugares inóspitos do mundo onde reinam a insegurança e o sofrimento.

Esta forma de ler o mundo continua a ser, apesar das profundas alterações nos contextos sociais, culturais, políticos e religiosos que as sociedades modernas, urbanas e ocidentais, têm vindo a experimentar, maioritariamente conservadora. Se já se encontram textos que explicitamente abordam o divórcio[2] e a existência de famílias monoparentais[3], a tendência continua a ser a da recuperação de mundos de nostalgia, onde o modelo de família clássica ocupa um lugar de destaque[4]. São, aliás, ainda raras as obras nas quais se questiona esse modelo nuclear ou se equacionam, de modo positivo, outros modelos no âmbito dos quais as crianças possam ser socializadas e protegidas –cf. Ramos.

O panorama editorial português deparou-se em 2008 com duas obras que, vocacionadas para a infância, retratam outros modelos de famílias: O Livro do Pedro (Maria dos 7 aos 8), da ilustradora e escritora Bacelar, e Ser diferente é bom, de Pessoa.

O nascimento próximo de uma criança, filha de Maria, é o mote que dá azo a O Livro do Pedro. Trata-se de uma obra que, construída numa estrutura de myse-en-abîme, narra, num registo autobiográfico, a infância de uma criança, num período em que vive com os seus dois pais: Pedro e Paulo. Tal como qualquer criança dessa faixa etária, também Maria convive regularmente com os seus primos, em casa da sua avó, estuda numa escola onde, para além da professora, tem muitos amigos, recebe-os em sua casa, vive o dia-a-dia familiar, com toda a naturalidade, carinho e profunda afeição por parte dos seus pais adoptivos, Pedro e Paulo. Agora que cresceu, e vai ser novamente mãe, Maria conta à sua filha a história da sua vida e, uma vez nascido o irmão, será a filha que irá, por sua vez, contar ao irmão esta meta-narrativa em que a protagonista foi a sua mãe.

A nível gráfico, são detectáveis na obra dois momentos distintos: num primeiro, um estilo a lápis, de contornos suaves e com um fundo pérola – momento em que Maria adulta e grávida relembra, com nostalgia, o período da infância e o reconta à sua filha – e, num segundo, um estilo com contornos a tinta, cores garridas e tramas mais fortes – momento em que Maria revive, com exuberância, a alegria, a espontaneidade e a felicidade da sua infância.

No fundo, esta é uma obra que, tal como é referido na sinopse que acompanha o catálogo editorial, contempla com naturalidade a diversidade das formas de parentalidade: o retrato de Maria é o de uma criança igual a tantas outras, que vive a sua infância de modo simples e feliz, naturalmente integrada e fazendo parte da comunidade.

A diversidade do modelo parental, a que se associa a questão do multiculturalismo, é igualmente o tema de Ser diferente é bom. Pedro e Maria são duas crianças que, com famílias diferentes mas vivências semelhantes, se reencontram no primeiro dia de aulas depois das férias e fazem novos amigos, particularmente Ion, um menino da Roménia. A narrativa, estruturada por episódios, mostra-nos o quotidiano das crianças em contexto familiar e escolar, no âmbito do qual elas partilham com os pais as suas vivências e descobertas. Tal como na obra anterior, também aqui uma das crianças (Maria) é educada por um casal homossexual com toda a afeição e carinho.

No fundo, a obra também apresenta dois modelos diferentes de parentalidade, assumindo-os como não detentores de qualquer marca de alteridade sob o ponto de vista simbólico. Trata-se, como sublinha o prefácio de autoria de uma psicóloga, de estimular um convívio com as diferenças e de suscitar e fomentar o diálogo entre todos.

 

Em jeito de nota final

As imagens que a literatura infantil tem dado da construção da identidade, da relação infância/adulto, do crescimento e da vida afectiva têm-se alterado conforme os períodos histórico-culturais e em função das ideologias e sistemas de valores vigentes nas comunidades de produção e de mediação. Aliás, como sublinhou Ewers (2009: 142), o próprio conceito de infância possui uma elevada fluidez e a sua natureza e características são, muitas vezes, influenciadas ora pelos percursos de vida de quem a ela se refere ora pelo facto de esta categoria constituir uma construção cultural historicamente variável (Ariès, 1960; DeMause, 1974; Becchi & Julia, 1998).

Alguns dos textos que aqui abordámos apresentam visões do mundo que, eventualmente, podem não ser totalmente pacíficas no âmbito de determinadas comunidades. Se esse facto poderia conduzir a um silenciamento de alguns destes textos, McClure (1995: 3) defende que é conveniente que a elas não lhes seja negada a possibilidade de contactarem e de interagirem com textos que, eventualmente, possam abordar assuntos vistos como polémicos. Desde logo, porque é bem mais fácil analisar criticamente tais temas em contexto de mediação leitora do que ser confrontado com eles na vida real. Além disso, vivendo numa sociedade democrática, é importante que os cidadãos, exercendo os seus juízos de valor, saibam reconhecer os actos de propaganda. E essa capacidade de reconhecimento e de acção na polis implica ter aprendido a interagir com essas situações. Obviamente que esta acção não inviabiliza que os pais e encarregados de educação devam poder acompanhar e ser devidamente informados das leituras partilhadas em contexto escolar com os seus filhos. Igualmente importante é que tanto escolas como bibliotecas tornem públicos os critérios de selecção dos livros colocados à disposição dos mais novos, prevendo mecanismos claros e inequívocos de reclamação e buscando, declaradamente, uma atitude de compromisso entre os actores educativos e a comunidade.

Os livros da literatura infantil, modelizando os realia, falam-nos do desejo e da possibilidade de acedermos e de concretizarmos a utopia. Presentificando mundos possíveis onde é sempre explícita uma vitória dos valores do bem, do amor, da solidariedade e da justiça sobre os valores do mal, da morte, do ódio e da injustiça, a literatura infantil tem partilhado com os seus leitores uma série de imagens que lhe mostram que é possível acreditar e concretizar uma sociedade harmónica, projectivamente mais aperfeiçoada do que aquela que faz parte do seu conhecimento do mundo ou dos sistemas ideológicos e de valores que contextualizam as instâncias de produção e de mediação. Neste sentido, concordamos com Bradford, Mallan, Stephens & McCallum (2008: 2) quando referem que o pensamento utópico atrai e gera ideias capazes de influenciar as práticas culturais, económicas e políticas, uma vez que existe nele intrinsecamente um sonho social (Sargent, 1994: 3).

 

Bibliografia

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[1] Veja-se aquilo que sucede nesse ícone universal (Beckett, 2008) que é O Capuchinho Vermelho, onde se retrata uma família monoparental composta por mulheres e os riscos gravíssimos que para elas advêm dessa sua capacidade de penetrar no espaço simbólico do Outro e de entabular uma acção discursiva e social com ele (Azevedo, 2008). Se é verdade que as protagonistas da história são seres com iniciativa (a avó vive sozinha na floresta; a mãe estimula a filha a ir visitar a avó; a menina não deixa de se deliciar, porventura ingenuamente, em entabular uma acção discursiva com o lobo), o desfecho da mesma, com as consequências bem conhecidas (na versão de Perrault), poderá, eventualmente, ser lido como um “alerta” face a determinadas práticas de entender a família.

 

[2] Cf. Taveira (2004), Gonçalves (2007) ou Pato e Oliveira (2008), onde se reforça a necessidade de uma visão positiva, globalmente inclusiva e dialogante acerca do outro e da sua recepção numa nova concepção de família, a qual, não sendo rigorosamente igual à de um certo modelo predominante, é, também ele, um espaço onde a afectividade se constrói e os laços familiares se aprofundam e germinam.

 

[3] Cf. os álbuns narrativos Faria (2008) ou Martins (2008). No primeiro encontramos o ponto de vista de uma menina face a sua mãe: as suas conversas, os seus passeios, o seu quotidiano e a convicção que é nela que sempre encontrará as palavras amigas quando tal for necessário. No segundo, respeitando uma construção dicotómica, explica-se a profunda relação afectiva que une o coração de uma mãe ao seu filho.

 

[4] Cf. Contumélias (2006), Ferreira (2006) ou Centeno (2008).