Juliana Pádua Silva Medeiros

Navegar é preciso, mesmo não sendo preciso: a multiplicidade de conexões na rede hipertextual da literatura para crianças e jovens

Juliana Pádua Silva Medeiros

Universidade de São Paulo - USP, Brasil

(julianapadua81@terra.com.br)

 

Resumo: Este trabalho discute sobre a ampla rede de significações ativada pelo leitor ao embrenhar-se pelas múltiplas entradas nos livros de literatura para crianças e jovens. Por isso, analisar-se-á o percurso do mesmo ao interagir com obras como Abrindo Caminho, de Ana Maria Machado, e A maior flor do mundo, de José Saramago, pois, em uma perspectiva hipertextual, que não se limita apenas ao universo do computador, observa-se a efetiva participação do leitor ao co-produzir os sentidos, pois, ao conectar os links que articulam as múltiplas linguagens no tecido verbal e visual, ele deixa de ser um mero destinatário passivo e passa a atuar como agente ativo na leitura.

Palavras-chave: leitor, leitura, hipertexto, literatura para crianças e jovens.

 

Abstract: This paper discusses the broad network of meanings activated by the reader to journey deep into the multiple entries in the books of literature for children and youth. Therefore, it will examine the course of it to interact with works such as Abrindo Caminho, by Ana Maria Machado, and A maior flor do mundo, by José Saramago, because, in a hypertext perspective, which is not only confined to the computer’s universe, there is the effective participation of the reader to co-produce the senses, then, to articulate the links that connect the multiple languages in tissue verbal and visual, it stops being a mere passive recipient and starts to act as an active agent in reading.

Keywords: reader, reading, hypertext, literature for children and youth people.

 

Em virtude dos avanços tecnológicos e a articulação com vários ambientes midiáticos, a sociedade, cada vez mais, se vê inserida em um ciberespaço, onde ocorre o intercâmbio de culturas, saberes e textos. Essa estrutura organizacional, planetária, multipolar, impulsionada pelos meios de comunicação, assemelha-se a uma rede constituída por relações interconectivas, resultando em novas práxis sociais: cibercultura.

Vale lembrar que tal dinâmica é análoga a um labirinto vivo em contínua reprodução, visto que “(...) cada novo nó da rede de redes em expansão constante pode tornar-se produtor ou emissor de novas informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua própria conta” (Lévy, 1999: 117).

Sob esse viés, vislumbra-se refletir sobre o leitor contemporâneo que imergi na confluência de linguagens plurais nos exemplares literários para crianças e jovens, Abrindo caminho (2004), de Ana Maria Machado, e A maior flor do mundo (2001), de José Saramago, cuja estrutura hipertextual, labiríntica, oferta múltiplas possibilidades de caminhos a serem percorridos, através de uma navegação por suas intricadas tessituras.

Nessa esteira, observa-se que a cibercultura promove o ciberespaço, favorecendo o engendramento de novas linguagens, que, consequentemente, exige formas de leitura diferenciadas, as quais fazem emergir o leitor imersivo.

O leitor imersivo é aquele que navega sobre a liquidez dos signos, construindo mapas de leitura a partir da escolha de rotas e direções em um roteiro multilinear e labiríntico, juntando fragmentos, os quais se conectam a partir de uma lógica associativa.

Conforme Santaella (2004), no trânsito de linguagens, esse leitor assume uma postura ziguezagueante por múltiplas direções, interagindo com infinitos textos em um caleidoscópio tridimensional, onde cada nó pode se desdobra em uma grande rede, o que alude à biblioteca de Babel tratada por Borges.

Essa atividade interativa pelo ciberespaço envolve transformações sensórias, perceptivas e cognitivas, pois, durante o processo de leitura, o leitor imersivo, por meio de operações inferenciais, busca estratégias para construir o seu mapa de navegação na rede hipertextual.

 

Hipertexto

Sabe-se que não há uma unanimidade entre os teóricos, quanto à definição do termo hipertexto, quando se trata do suporte, visto que alguns críticos delimitam-na somente ao uso do computador.

Entretanto, apesar de referir ao texto eletrônico, o conceito formulado pelo filósofo Pierre Lévy, também, pode abarcar aqueles veiculados nos meios tradicionais.

 

Hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, imagens, gráficos ou parte de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira (Lévy, 1993: 33).

 

Contudo, apesar de Santaella (2007) afirmar que “Foi a digitação computacional que ofereceu o suporte perfeito para a operacionalização do hipertexto”, é Dilvo I. Ristoff, no prefácio do livro Leituras do hipertexto: Viagem ao Dicionário Kazar (2003), escrito por Raquel Wandelli, que resume a perspectiva norteadora deste trabalho.

 

(...) Wandelli conclui que “o aparato eletrônico não determina a hipertextualidade, mas opera junto com ela. O hipertexto é um processo de leitura e escrita, uma potencialidade que pode ou não ser ativada em determinado meio”. Embora o meio eletrônico encoraje uma escrita mais fluida e facilite a liberação do pensamento e das narrativas do jugo da sequencialidade, por si só ele é insuficiente para garantir a existência de um processo ou de uma arquitetura hipertextual. Para Wandelli é, pois, falsa a dicotomia entre o livro impresso e o meio eletrônico em termos de oposição binária entre o velho e o novo. As narrativas contemporâneas mostram que o livro impresso também mudou e que a mudança, iniciada de forma dramática nas últimas décadas, não só responde às novas tecnologias da era da informática como de certa forma antecipa algumas de suas estratégias e possibilidades.

 

Observa-se que a noção de hipertexto ainda não está sedimentada devido à grande complexidade epistemológica, pois é bastante discutível se as recentes teorias literárias foram incorporadas pelo universo hipertextual ou se o hipertexto ensinou uma nova forma de revisitar antigas teorias e ler velhos textos.

Para tanto, nessa ilusão cronológica de tentar estabelecer as origens do hipertexto, classifica-se a Bíblia, a Divina Comédia, Ulysses, Madame Bovary, Se um viajante numa noite de inverno, Memórias Póstumas de Brás Cubas, As mil e uma noites, entre outras obras primas, como exemplos de diagramas hipertextuais, nos quais são permitidas múltiplas entradas e saídas a partir de um jogo interativo.

Segundo Calvino (1990), pensar na teoria da multiplicidade significa pôr sob consideração o entendimento de que o texto literário é um método de aquisição do saber, visto que tecemos conexões entre pessoas, fatos e o próprio mundo, tratando de um “sistema de sistemas” em que cada um condiciona os demais e é condicionado por eles.

Tal perspectiva vê a obra como produto de uma reunião de obras maiores, tornando-se uma enciclopédia aberta, não porque abarca o conhecimento em sua totalidade, mas porque conjectura o potencial múltiple. Vale lembrar que para Italo Calvino, etimologicamente o adjetivo aberta contradiz o substantivo, pois não há pretensão de exaurir o conhecimento do mundo, de modo a encerrá-lo em um círculo.

Decorrente dessa ideia pode-se afirmar que o livro se apresenta como uma vasta rede hipertextual em constante crescimento, concentrando vários sentidos por meio de confluências multiespaciais e temporais.

 

Diversos códigos migram para livro, da mesma forma como códigos do livro migram para outros suportes, e, com esse trânsito, os textos vão assumindo características de estrutura hipertextual; o que vai requerer um programa de acesso via leitura com características de um mapa de navegação multidirecional e interativo do hipertexto do computador para explorar os limites e possibilidades desse hiperlivro, feito de links múltiplos, que vão traçando vias permutacionais pelas quais é possível navegar (Cunha, 2008: 49).

 

Assim, o termo hipertexto configura-se como um compêndio de tradição narrativa, uma enciclopédia de saberes, na qual o conhecimento, na perspectiva da multiplicidade, é o fio que ata as obras maiores, tendo em vista que disponibiliza novas possibilidades de leitura ao incorporar em sua dinâmica o modo fragmentado e fluido com que a memória opera.

 

(...) se prestarmos atenção ao processo de leitura, principalmente a literária, a palavra hipertexto se tornará mais familiar, já que através dela concretiza-se o próprio ato de ler. É que a leitura permite ao leitor abrir janelas e mais janelas no texto, promovendo um encadeamento com outros textos e contextos, sem seguir necessariamente as trilhas já traçadas. A leitura é sempre parte de uma rede de textos e de sentidos construídos no jogo entre produção e recepção, nesse ininterrupto processo intertextual (Walty, 2006: 117).

 

Desse modo, no formato hipertextual, consoante com Wandelli (2003), a obra está sujeita a volatilizar-se, seguindo o curso de um rizoma, o qual imbrica em uma cadeia de caminhos formada por vários blocos interdependentes que permite redescobrir a autonomia e a importância das partes, tornando a literatura uma fonte inesgotável de investigação.

Ademais, verifica-se que a quebra de linearidade, a escrita em teia, a variedade de recursos gráficos, a fragmentação e a interconectividade são características textuais que não surgiram com o computador.

 

Nos limiares dos séculos XVI e XVII, Cervantes, ele mesmo, já explorava em Dom Quixote alguns recursos hoje incorporados e potencializados pelo hipertexto. A divisão de capítulos (fragmentação), marcados por subtítulos, os prólogos, linhas de apoio, sumários, dedicatórias e recursos que Genette chamou de paratextos já estavam lá, ajudando a mapear topologicamente a leitura e propiciando o deslocamento do centro para as margens do texto, o que marca outra característica do hipertexto: o descentramento. A rede imensa de histórias interpoladas que entrecortam a narrativa do velho Dom Quixote mostra que os romancistas nunca se limitaram ao modelo aristotélico princípio-meio-fim e buscaram reincidentemente formas mais elásticas para expor suas narrativas fora do jugo da sequencialidade (Wandelli, 2003: 24 e 25).

 

Verifica-se que, durante o processamento textual, o leitor do hipertexto carece mobilizar conhecimentos armazenados na memória para que, assim, possa interagir com o livro, uma vez que a construção dos sentidos se dá por um jogo de pistas e sinalizações existentes na leitura.

No entanto, tratar sobre essa interatividade implica em algo mais do que, somente, co-autoria. É preciso explorar os limites e potencialidades desse hiper-livro, feito de links múltiplos, que traçam vias permutacionais pelas quais é possível navegar. (Oliveira, 2000)

 

Análise

Em Abrindo Caminho, escrito por Ana Maria Machado e ilustrado por Elisabeth Teixeira, observa-se construções circulares, formas fragmentadas, rizomáticas e labirínticas, que colocam o exemplar em um jogo de interatividade com o leitor, pois, segundo Santaella (2007), em vez de um fluxo linear de texto, o hipertexto acaba quebrando essa linearidade em unidades ou módulos de informação, constituindo, assim, em partes ou fragmentos de textos.

Nessa narrativa, nota-se que a arquitetura textual gira em torno de três grupos, os quais se referem cada um a três personagens[1]. O primeiro trata dos sujeitos ligados à poesia, aludindo a Dante Alighieri, Carlos Drummond de Andrade e Tom Jobim. O segundo seria das grandes personalidades da História, mencionando Cristóvão Colombo, Marco Pólo e Alberto Santos Dumont. Já o terceiro reporta-se a uma garota, um menino e ao leitor da obra, os quais se relacionam, respectivamente, com as divisões anteriores, tendo em vista que aquela aparece com os livros nas mãos; aquele, com um mapa debaixo dos braços; enquanto esse, como representante e agente de transformação, o co-produtor dos sentidos.

Todavia, mesmo que, aparentemente, fragmentadas, as micros narrativas se (re(inter))cruzam, engendrando em um espaço de simultaneidade e sobreposição de acontecimentos que se multiplicam em um diagrama de vozes e combinações, nos quais o leitor é obrigado a ziguezaguear por uma estrutura não mais linear e fixa.

Assim, o que ocorre é uma conexão multiespaço-temporal que, a partir de links, constrói os sentidos em uma vasta rede hipertextual sempre em crescimento, assemelhando-se a uma enciclopédia.

Diante disso, é possível examinar, no primeiro par de páginas da obra, que a ilustração explora a Idade Média, época em que viveu Dante, focando a oposição entre claro e escuro, anjo e demônio, dia e noite, bem e mal. Além de evidenciar as caricaturas de Beatriz e Virgílio, personagens da Divina Comédia, dentro de uma selva escura.

Ademais, observa-se que, no próprio exemplar, que esse fragmento do livro conecta com a cena seguinte, na qual trata de Carlos Drummond de Andrade diante de uma pedra, inspiração para o seu poema, que por sua vez, retoma o clássico de Dante Alighieri. Logo, a leitura, em um movimento de trás para frente, ecoa em outras, que por sua vez, em mais outras.

Novamente, uma metáfora do diagrama hipertextual, devido à rede de conexões entre verbal e visual, entre a obra e os conhecimentos do mundo.

A ilustradora Elisabeth Teixeira, com maestria, utiliza-se de outro recurso, a metalinguagem, pois o volume que a menina lê, retoma à mesma gravura registrada nas duas páginas anteriores de Abrindo Caminho (um livro dentro de outro livro), em um movimento ziquezagueante de ir e vir no andamento narrativo.

Nessa ampla rede de significações, o escrileitor[2] tece sentidos, faz conexões, ativa links[3], traçando seus próprios percursos em um movimento multidirecional entre os nós.

Em A maior flor do mundo, a partir das ilustradoções João Caetano, observa-se a presença de uma fada entrando pela janela, do baú, do castelo no centro da página, dos títulos do exemplares Moby Dick, Gnomos e Duendes e A Ilha do Tesouro retomam o universo clássico e aventuresco da literatura, criando uma metonímia do livro como enciclopédia.

Na mesma figura, há, na lateral de um livro de capa preta, a alusão às narrativas ficcionais orientais – devido a imagem do samurai e da expressão “vol. 1” – que remetem a literatura folclórica, origem dos textos para crianças[4].

Enfim, os títulos exposto na prateleira sugerem um acervo enciclopédico, que intertextualiza com A Maior Flor do Mundo, uma obra literária, igualmente, rica em aventuras, apontando a multiplicidade geradora de caos e ordem.

Na arquitetura hipertextual, os diferentes caminhos a serem percorridos, livremente, pelo leitor na co-produção dos sentidos tornam-no, a partir de suas escolhas, também, autor do texto, perturbando o equilíbrio entre as posições fixas de leitor escritor. Então, se pensarmos na forma de um labirinto, não somos viajante ou arquiteto, mas viajante e arquiteto.

Com base nisso, no hipertexto, não há uma mensagem definitiva, muito menos totalidade de sentidos, mas uma rede de possíveis novas significações. Portanto, sair desse labirinto não deve ser considerado como uma posição final, porém, uma alternância entre entradas e saídas contínuas.

 

Bibliografia

CALVINO, Italo (1990), Seis propostas para o próximo milênio, São Paulo: Companhia das Letras.

CUNHA, Maria Zilda da (2008), “Entre livros e telas – a narrativa para crianças e jovens: saberes sensíveis e olhares críticos”, in Via Atlântica, nº 14.

LÉVY, Pierre (1999), Cibercultura, São Paulo: Ed. 34.

MACHADO, Ana Maria (2004), Abrindo Caminho, São Paulo: Ática.

OLIVEIRA, Maria Rosa Duarte de (2000), “Memórias Póstumas de Brás Cubas e o hipertexto, in VI Congresso da Associação Internacional dos Lusitanistas 2002, Rio de Janeiro.

SARAMAGO, José (2001), A maior flor do mundo, São Paulo: Companhia das Letrinhas.

SANTAELLA, Lúcia (2004), Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo, São Paulo: Paulus.

— (2007), Linguagens líquidas na era da mobilidade, São Paulo: Paulus.

WANDELLI, Raquel (2003), Leituras do hipertexto: viagem ao Dicionário Kazar. Florianópolis, ed. da UFSC, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

 



[1] Uma teia de narrativas originando não apenas caminhos múltiplos de três, mas uma inesgotável fonte de percursos, onde ocorre um agenciamento infinito de histórias dentro de histórias, as quais se completam, aproximam, bifurcam e excluem.

 

[2] Expressão usada por Raquel Wandelli no livro Leituras do hipertexto: Viagem ao Dicionário Kazar.

 

[3] Os links podem ser palavras ou imagens que permitem o movimento da narrativa para frente ou para trás, remetendo a leitura para pontos distantes, como o intuito de provocar dinamicidade ao texto.

 

[4] Nelly Novaes Coelho rastrea a gênese e a evolução da Literatura Infantil desde suas origens populares até o Brasil contemporâneo.