Marly Amarilha

Marly Amarilha

Literatura e quadrinhos: a paródia como pedagogia na formação do leitor

Marly Amarilha

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil)

(marlyamarilha@yahoo.com.br)

 

Resumo: O estudo focaliza a contribuição do gênero paródia na formação cognitiva, literária e cultural do leitor. A pesquisa foi realizada em escola do ensino fundamental localizada em Natal-Brasil, no período de 2005-2007. Os sujeitos foram 90 alunos de três turmas do 4º ano. Realizaram-se 10 sessões de leitura de textos de história em quadrinhos da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, seguida pela leitura de contos de fadas de Grimm, Andersen e Perrault que mantêm relação intertextual entre si. A abordagem comparativa evidenciou o potencial da paródia apresentada nas histórias em quadrinhos para a uma pedagogia da formação crítica do leitor de ficção.

Palavras chaves: leitura, história em quadrinhos, literatura infantil, paródia.

 

Abstract: The study focuses on the contribution of the parody genre in the reader’s cognitive literary and cultural formation. The research was carried out in an elementary school located in Natal-Brazil, during the period of 2005-2007. The subjects were 90 students from three 4th grade classes. The data were collected from 10 reading sessions of texts from the Monica’s gang comics, by Maurício de Sousa, followed by the reading of Grimm’s, Andersen’s and Perrault’s fairytales which maintains an intertextual relation between them. The comparative approach reveals the parody’s potential presented in comic books to a pedagogy of reader’s critical formation in fiction.

Key words: reading, comics, children’s literature, parody.

 

O estudo focaliza a contribuição do gênero paródia na formação cognitiva, literária e cultural do leitor. Os dados são originários da pesquisa “O ensino de leitura: a contribuição das histórias em quadrinhos e da literatura infantil na formação do leitor” realizada em escola do ensino fundamental localizada em Natal-Brasil, no período de 2005-2007. Os sujeitos foram 90 alunos de três turmas do 4º ano. Foram realizadas 10 sessões de leitura de textos de história em quadrinhos da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, seguidos de 10 contos que mantêm relação intertextual com histórias de Grimm, Andersen e Perrault.

A decisão em investigar a formação leitora comparando a paródia realizada pela história em quadrinhos e o texto de literatura surgiu de pesquisas anteriores em que se chegou a duas constatações: 1. as crianças chegam à escola com o repertório de leitura das histórias em quadrinhos; 2. as crianças conheciam personagens literários a partir de histórias da Turma da Mônica. Essa penetração no imaginário infantil das histórias quadrinizadas pode ser justificada pela força editorial da Turma da Mônica bem como pela exploração da paródia como estratégia de composição das narrativas. Os quadrinhos da Turma da Mônica já venderam mais de 1 bilhão desde sua primeira edição em 1970; o site bilingue da Monica´s gang recebe 30 milhões de visitantes ao mês; as revistas da turma representam 70% do mercado brasileiro de publicações para crianças e circulam em vários países da Europa, Ásia e nos Estados Unidos. Portanto, o impacto cultural desses quadrinhos é relevante não só para o público brasileiro como para crianças de outras nacionalidades.

Focalizo, aqui, a contribuição da paródia na formação do leitor a partir das exigências cognitivas e culturais que sua leitura demanda. Conforme Hutcheon (1985: 96) “a paródia postula, como pré-requisito para a sua existência, uma certa institucionalização estética que acarreta a aceitação de formas e convenções estáveis e reconhecíveis”. É o caso dos contos de fadas. Reconhecidos como patrimônio cultural, essas narrativas desfrutam de grande circulação social, transformando seus enredos em instituição estética, portanto, com indicadores linguísticos e culturais de fácil reconhecimento. Essa “reconhecibilidade” (Hutcheon, 1985: 96) conquistada pelos contos de fadas favorece ao leitor recuperar através das histórias em quadrinhos referências o repertório literário e cultural tradicional.

Deve-se assinalar que a história em quadrinhos apresenta uma narrativa breve em que é mostrado um episódio na vida dos personagens. Na narrativa literária,ao contrário, a historicidade dos fatos limita-se à narrativa que se conta, isto é, existe um enredo em que os personagens vivenciam uma trajetória da qual emergem transformadas e vitoriosas, e aí terminam suas histórias. Ou seja, os personagens dos contos existem apenas naquelas histórias. Nos quadrinhos da Turma da Mônica, os personagens são criados para se manterem inalteráveis, pois são feitos para se reproduzirem em série. Os personagens são criados para participarem em universo que a repetição dos comportamentos são a garantia de sua continuidade, daí os traços estereotipados que os marcam. Portanto, a longevidade dos personagens das histórias em quadrinhos frente à única história vivida pelos personagens dos contos de fadas é uma diferença fundamental que singulariza cada um dos gêneros.

A relevância da paródia na formação leitora pode ser assinalada pelos diferentes aspectos com os quais estimula a cognição, a inserção na cultura e a desenvolver atitude crítica diante do conhecimento que o contato com esse gênero de texto propicia. Do ponto de vista dos processos de ler, a relação entre um texto paródico e sua possível matriz leva o leitor a seguir o propósito de associar um texto a outro para poder dessa tarefa relacional atribuir significados ao que lê. Decorrente desse movimento intelectual, o leitor precisa saber que está lendo uma paródia e assim, estabelecer um propósito em sua leitura – que é exatamente a arqueologia das fontes primárias do texto paródico. Assim, ao delimitar o foco da atenção para sua leitura, o leitor exercitará interatividade exigente e sofisticada entre o que sabe, o que o texto mostra e o que o provoca a investigar sobre suas fontes. Nesse empreendimento, a paródia coloca em ação a memória cultural e a história de leitura de quem lê, aciona seus conhecimentos prévios e, de posse dessas ferramentas, promove o aprendizado da leitura, lendo, pois o sujeito deve estar atento aos procedimentos necessários para conhecer através do texto parodiado as articulações feitas com a fonte original.

Os pares de histórias selecionados na pesquisa oferecem exemplos dessa intertextualidade paródica, sendo os contos de fadas as narrativas que relatam dramas das quais as histórias em quadrinhos são sua reinvenção bem humorada. Neste artigo, faço a comparação entre o texto quadrinizado Cascão em “O porquinho borralheiro” e o conto “A Gata Borralheira” na versão dos Irmãos Grimm. Como se sabe A Gata Borralheira é vítima da perseguição de sua madrasta e irmãs até que, ajudada por poderes mágicos, participa de bailes em que o príncipe por ela se apaixona, casando-se com ela e redimindo-a de sua condição subalterna.

A história de Cascão em “O porquinho borralheiro” assim pode ser resumida: Viviam felizes em um castelo a família de Antenor, sua esposa Lurdes e o filho Cascão. Para aumentar a família adotaram duas irmãs órfãs Cremilda e Clotilde. Certo dia, os pais foram à feira comprar batatinhas baroa e desapareceram. Cascão passa a ser o criado da casa. Finalmente, acontece um baile no palácio real. As irmãs colocam Cascão no porão do castelo para descascar batatas, enquanto elas vão para o baile. Cascão percebe que elas haviam roubado todas as batatas. Ajudados por personagens mágicos e seu fado madrinho, Cascão vai ao baile usando sapatinhos de cristal. Lá desmascara as irmãs e reencontra seus pais que estavam prisioneiros em um baú.

É com a bagagem da cultura e da literatura que o leitor é convidado a ler a história em quadrinhos. Na abertura da história, a narrativa adota linguagem literária sinalizando para o leitor sobre a natureza ambígua da história que segue, isto é, embora lendo uma história em quadrinhos a referência sobre o estilo literário é acionada na memória do leitor e é nesse movimento de relação entre estilos que se constrói a paródia. Assim inicia o narrador da história “O porquinho borralheiro”: “Muito além das planícies geladas do sul”... “passando pelo vale encantado do faz-de-conta”... “logo depois da floresta dos gnomos cor-de-abóbora, existe um antigo castelo!” O reconhecimento da linguagem e do estilo literário favorece a atividade de comparar os dois gêneros e promove o desenvolvimento da visão crítica sobre essas produções ficcionais e os enredos vividos por seus personagens.

Na medida em que a narrativa contemporânea progride, as semelhanças e, sobretudo, as diferenças vão se estabelecendo entre os dois gêneros, o literário e o quadrinizado. No universo da Turma da Mônica infantil domina o humor. Seus personagens vivem enredos em que ficam evidenciadas suas fragilidades como criaturas em processo de crescimento.

O mesmo não pode ser dito dos personagens que frequentam os clássicos contos de fadas. Originários de narrativas populares, criadas para encantar seu público por longas temporadas de colheita e introduzir as novas gerações nos conhecimentos da comunidade e desafios da vida, os contos de fadas são narrativas que mostram o homem conduzido pela virtude, pela conformação à dor, mas é um dia recompensado com a felicidade duradoura. A dignidade com que o personagem do conto de fada vive seu drama mostra uma criatura heróica, elevada, expressão aristotélica do homem em sua melhor condição. Esse paralelo de perspectivas sobre o mesmo enredo possibilita ao leitor a experiência de contemplar diferentes trajetórias do destino humano e aprender com elas.

No estudo comparativo que o desenho da pesquisa propiciou aos pequenos leitores, a paródia teve papel fundamental. Provocados pela leitura do gênero a que eram familiarizados, os quadrinhos, a leitura dos textos dos contos de fadas tornou-se desejada por aquelas crianças. Fazendo o trajeto do que conhecem, a história em quadrinhos, para a descoberta das referências de histórias de literatura ali citadas, os leitores atualizam o patrimônio literário e se tornam assim, leitores mais competentes. De fato “a paródia é o guardião do legado artístico, definindo não só onde está a arte, mas de onde ela veio” (Hutcheon, 1985: 97) e dessa maneira aproxima o passado dos novos leitores.

Quando colocadas em confronto, esse par de histórias, uma clássica e sua paródia, o leitor tem a possibilidade de conhecer as perspectivas de drama e leveza com que a vida pode se apresentar. Colher dessa experiência aprendizado é meta possível para essas leituras, pois promove a educação do olhar e possibilita julgar as escolhas que podem ser feitas na vida por meio da ficção.

Para surpresa dos pesquisadores, após o término do estudo, em sondagem exploratória, perguntamos aos alunos de qual modalidade haviam gostado mais, quadrinhos ou literatura. Muitos preferiram a literatura. Os argumentos apresentados foram de que “acontecem mais coisas”, “a gente imagina mais”. Ao que parece, esses aprendizes estão descobrindo que não só de leveza se faz a leitura ou a vida. O estudo permite concluir, que a paródia que os quadrinhos desenvolvem é um gênero pedagogicamente relevante para a formação leitora, pois apresenta ao aprendiz uma bem humorada porta de entrada para o patrimônio da cultura literária representada pelos contos de fadas. Ao mesmo tempo, essa leitura comparativa entre os dois gêneros lhes mostra diferentes perspectivas sobre o destino humano.

 

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